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Ronaldo Dias

O Presente do Passado

A idade vai chegando e parece que a memória, pouco a pouco e automaticamente, passa a guardar apenas a síntese das nossas vidas. Será, além do desgaste natural, uma “economia” de neurônios? Como em um álbum de fotografias, a memória passa a resgatar de quando em quando, somente aqueles momentos marcantes que vivemos. Bons e ruins.

O interessante é que os ruins, o tempo se incumbiu de ameniza-los. Perderam muito daquela ruindade. Esta semana quando procurava um daqueles documentos tão bem guardados (que quando precisamos não achamos) me deparei com o meu passado. Entre tantos papéis esquecidos encontrei uma foto do meu avô Alfredo, pai da minha mãe. A foto era da época que meus pais viajavam muito (meu pai era trapezista de circo) e eu, no inicio da idade escolar morava na casa do vovô, junto com tios Romeu e Sérgio e tias, Dora, Maura e Vera (com as regalias de primeiro e único neto e sobrinho).

A memória, rapidamente me trouxe à lembrança, cenas da época, com uma impressionante riqueza de detalhes. Da casa, desde a trinca na coluna do portão, a pia desgastada de “granilite” cor de vinho, que com “cândida” minha avó insistia em deixar branca, a escada barulhenta de madeira, a sala com a mesa de costura do meu avô alfaiate, os quartos e até a área da frente onde pintei as paredes creme com lápis de cor e o tio Sérgio com os amigos, jogava futebol de botões. Tudo muito claro. Da comida simples, sinto o aroma apetitoso do bife frito e do feijão. As verduras frescas da horta eram apanhadas na hora, pois não havia geladeira. Lembro-me do arroz branco com ovo (das galinhas do quintal) servido ao tio Romeu que tinha nesta “iguaria” seu prato predileto, e também do volumoso prato fundo (trasbordante) de arroz e feijão do tio Sérgio.

O sanduíche que eu levava (de lanche) para a escola era recheado de tomate sem sementes, cortado bem fininho, temperado com azeite, sal e azeitonas descascadas. No quintal tinha as arvores e bananeiras disputavam espaço ao sol com os pés de abóboras e o milharal. Na época própria o milharal em cima da tampa redonda da enorme fossa, se transformava em espigas. Espigas na cozinha, em curau, pamonhas, bolo de bagaço, milho assado e cozido. Ambos devorados com manteiga de latinha. Tanta espiga produzia o milharal que ainda enchia várias vezes as sacolas de feira das vizinhas e das visitas interesseiras.

Eu estudava em um colégio de padres Salesianos. Na igreja da paróquia (Chácara), meu tio Sérgio era coroinha (ajudava a Missa, ainda em Latim) e minhas tias Maura e Vera (Filhas de Maria) cantavam no coral. Meu avô era o meu “amiguinho” das horas solitárias, e companheiro de todas as outras. Nas tarefas entediantes da escola, na missa aos domingos (de presença carimbada na caderneta da escola) nos passeios, até no bingo e nas barracas de prêmios da quermesse da igreja, estava, em quanto pode, presente. Ele, e meus tios, me chamavam de Dadinho.

Em cada ida sua a padaria da esquina (a Moravia) para comprar seus cigarros (Macedônia) os os pãezinhos “quentinhos” era umas balinhas ou um docinho pro Dadinho. Nas tardes frescas, seus olhos atentos vigiavam minhas estripulias no carrinho de três rodas pela rua esburacada e sem calçamento, surdo aos gritos de cuidado, em coro, das minhas tias cantoras. O perdi logo. Muito rápido! Tinha apenas sete anos.

Quantas e quantas lições, neste pouco tempo, ele me ensinou. Quantas de suas lições e exemplos fazem parte da minha personalidade e da minha vida! Ele foi um presente que recebi e não tive tempo de agradecer. Partiu tão escondido e cheio de cuidados para eu não perceber que estava indo, que conseguiu. Junto com sua foto encontrei estavam algumas de suas cartas à minha mãe falando do “seu” Dadinho. Era o ano de 1958.

Em cada frase das cartas que li, muitas lembranças. Em cada lembrança, uma lágrima. Quem disse que saudade não dói e homem não chora? Meu avô foi um presente. Um presente no meu passado.

Ubatuba, 22/03/2001

Ronaldo Dias

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